A construção das cidades como iniciativa dos próprios cidadãos é, cada vez mais, uma realidade em diversos centros urbanos. Se por um lado esse cenário revela o distanciamento entre o planejamento urbano tradicional, governo local e reais necessidades da população, ele também representa  o empoderamento cidadão na transformação social e urbana.

Modos alternativos, inclusivos e espontâneos de construirmos nossas cidades surgem quando os próprios habitantes protagonizam as ações de adaptação do entorno urbano as suas necessidades. Neste contexto, o aumento do acesso à informação facilita a aproximação e auto-organização dos indivíduos, que juntos são capazes de resolver diversos desafios urbanos. Com distintas causas e escalas, as práticas urbanas colaborativas nos trazem a oportunidade de refletir sobre uma sociedade verdadeiramente participativa, de recuperar identidades coletivas e observar um urbanismo mais humano e democrático.

Atento à todo esse movimento e visando reconhecer essas práticas no território brasileiro, foram selecionadas 15 iniciativas para compor a Mostra de Projetos do I Encontro de Urbanismo Colaborativo, a ser realizada em novembro de 2016. A chamada foi aberta a equipes compostas por moradores, associações, coletivos, estudantes, professores, ONGs, dentre outros, e busca destacar os projetos em duas categorias:  

I – Ação Urbana Colaborativa: intervenções físicas que tenham sido desenvolvidas com direto envolvimento de atores locais.

II – Conscientização e Formação Cidadã: programas que investem na capacitação da população para a promoção do desenvolvimento social.

Confira a seguir os selecionados que apresentarão seus projetos na Mostra:

Ação Urbana Colaborativa

  • Área de Lazer e Convívio Laranjal – Coletivo Formigas – Viçosa/MG

Área de Lazer e Convívio Laranjal - Coletivo Formigas - Viçosa/MG

Foto: Coletivo Formigas

A iniciativa partiu de um grupo de estudantes de arquitetura que não acreditam na aprendizagem apenas por parte da academia e que se uniu na forma de coletivo a fim de atuar em parceria com e em prol da comunidade, tendo sido recebido por esta com muitos sonhos e vontade de realizá-los. A maneira encontrada para dar-lhes forma, para que fosse capaz de contribuir e, ao mesmo tempo, aprender nesse processo, foi a criação de mobiliário para lazer e descanso, para crianças e não-crianças, a partir de paletes de madeira reaproveitados em sistema de oficina e mutirão facilitado em associação com outros grupos de atuação colaborativa. O mobiliário foi construído na rua principal, junto à abandonada linha do trem, em uma zona capaz de atender moradores de todas as áreas do bairro e tornar-se um ponto de encontro e socialização.

 

  • Placemaking na Praça do Conjunto Alvorada – Coletivo A-braço – Fortaleza/CE

Placemaking na Praça do Conjunto Alvorada - Coletivo A-braço - Fortaleza/CE

Foto: Luciana Otoch

Formado por estudantes e profissionais de arquitetura e urbanismo, o Coletivo A-braço deu início a suas atividades no início do ano 2016. Com a proposta de promover ações que estimulassem a apropriação dos fortalezenses com os espaços públicos da cidade, foi adotada a metodologia Placemaking no Praça do Conjunto Alvorada, no bairro Sapiranga. Envolvendo os moradores das redondezas e de estudantes da Universidade de Fortaleza, foi possível realizar um ciclo de intervenção completo: abordar o tema com a comunidade, divulgação nos meios de comunicação, criar uma oficina com estudantes interessados em colaborar, trazer convidados – coletivos, arquitetos, artistas e líder comunitários – a fim de para fomentar ideais, diagnosticar as necessidades reais do espaço e, finalmente, pôr em prática as propostas.

 

  • Urbanxchanger – Marcos L. Rosa, Andrea Bandoni, Julia Masagão, Vapor324, Constructlab, Ute Weiland – São Paulo/SP

Urbanxchanger - Marcos L. Rosa, Andrea Bandoni, Julia Masagão, Vapor324, Constructlab, Ute Weiland - São Paulo/SP

Foto: Urbanxchanger Time São Paulo

Com o objetivo de repensar a prática da arquitetura, trabalhar junto a iniciativas comunitárias e construir o futuro da cidade, dois times de arquitetos de São Paulo e Berlim foram desafiados pelo projeto ”urbanxchanger” a unir-se e imaginar novas soluções a partir de situações existentes. O parceiro “Cidades Sem Fome”, articula 22 hortas urbanas, usando terrenos residuais da rede elétrica e de oleodutos de São Paulo e transformando-os em locais produtivos, estimulando o consumo local e a geração de renda.

 

  • #tonopico – URB-Unoeste – Presidente Prudente/SP

#tonopico - URB-Unoeste - Presidente Prudente/SP

Foto: Lana Mika Oto

Trata-se de uma área verde pública situada em um ponto alto da cidade que proporciona belos visuais voltados para a paisagem urbana de grande parte do município, é popularmente conhecido como “pico da neblina” ou “VDC” que significa vista da cidade. Essa intervenção baseia-se em uma instalação que visa qualificar o espaço de acordo com a suas necessidades, por meio de mobiliários urbanos que permitam a flexibilidade de uso, tornando-se assim uma nova experiência para as pessoas e um experimento para o lugar.

  • Ocupação de Vazios Urbanos: estratégias para a construção de Cidades Saudáveis – GEPUCS/LABINUR/UNICAMP – Conchal/SP

Ocupação de Vazios Urbanos: estratégias para a construção de Cidades Saudáveis - GEPUCS/LABINUR/UNICAMP - Conchal/SP

Foto: Ana Maria G. Esperandio

A horta comunitária foi implantada por meio da articulação entre diferentes setores o que propiciou a triangulação e fortalecimento da parceria entre governo local, universidade (UNICAMP) e a comunidade local para o processo de governança na cidade. O objetivo da implantação desse projeto era ocupar um vazio urbano degradado através de uma atividade que poderia fazer parte do processo de requalificação urbana local, resgatando a função social dessa parcela do território.

 

  • Revitalização do Centro Comunitário da Comunidade do Jaburu – Palete Parque – Vitória/ES

Revitalização do Centro Comunitário da Comunidade do Jaburu - Palete Parque - Vitória/ES

Foto: Priscila Ceolin

Este projeto contempla a revitalização da fachada do Centro Comunitário, buscando uma identidade para o local que refletisse processos históricos, elevando a auto-estima dos moradores locais e estimulando à ocupação urbana com espaços públicos de lazer, horta comunitária e paisagismo. Utilizando madeira reutilizada, anteriormente aplicada nos barracos como vedação por necessidade, agora como material que traz harmonia estética ao ambiente.

 

  • Casa Fora de Casa – Sobreurbana – Goiânia/GO

Casa Fora de Casa - Sobreurbana - Goiânia/GO

Foto: Polli di Castro

Casa Fora de Casa é um projeto de conscientização e formação cidadã a partir de ações urbanas colaborativas. Recorrendo a várias metodologias do urbanismo tático, placemaking e design thinking, estimulou-se novas formas de olhar e vivenciar o espaço público, promoveu-se a empatia e o trabalho colaborativo, mapeou-se as ameaças, fragilidades e potencialidades dos lugares, para depois, coletivamente, pensar-se soluções a curto e a longo prazo. O projeto deixou marcas em cada um dos espaços de atuação: balanços nas árvores, redários, agrofloresta, pista de skate pintada de novo, sinalização, estátua musical, mesa de piquenique e arte urbana.

 

  • Práticas Participativas no Beco das Pedras – Escritório Modelo Albano Volkmer (EMAV) – Porto Alegre/RS

Foto: EMAV

Foto: EMAV

A atuação do EMAV – programa de extensão Escritório Modelo Albano Volkmer – junto à comunidade do Beco das Pedras (área no Morro da Cruz, bairro São José, Zona Leste de Porto Alegre) busca trazer melhorias socioespaciais para o local utilizando uma metodologia de projeto participativo no qual estão envolvidos moradores, estudantes e outros agentes externos de diversas áreas de atuação. O projeto começou em 2014, iniciando por um processo de criação de vínculos com a comunidade, durante o qual foi feita uma análise da área. No início de 2016, foram feitos estudos para a melhoria do acesso local, que incluíram tanto questões de acessibilidade, quanto questões mais específicas que abordam conhecimentos sobre técnicas construtivas adaptáveis ao local – um terreno acidentado de difícil acesso.

 

  • Projeto Casulo – LUMEs e UFMG – Belo Horizonte/MG

Foto: Projeto Casulo

Foto: Projeto Casulo

O projeto CASULO parte da apropriação de um terreno abandonado cedido pela Prefeitura, onde estão as antigas caixas d’água do município. Seu objetivo é reabilitar o espaço para uso comunitário e gestão compartilhada aliado ao fortalecimento da Rede de Trabalhadores da Cultura do município. Dessa forma, propõe-se a apropriação do espaço com atividades que visem a profissionalização e integração dos agentes culturais da cidade e a consolidação da identidade local.

 

Conscientização e Formação Cidadã

  • Oficina Multidisciplinar – LUMEs e UFMG – Belo Horizonte/MG

Foto: Florencia Sosa

Foto: Florencia Sosa

A “Oficina Multidisciplinar: Os LUMEs e a prática do planejamento metropolitano” oferecida pela Escola de Arquitetura da UFMG tem como objetivo a integração de locais de produção e difusão de práticas socioculturais do território metropolitano para constituírem uma rede continuada que promova discussões sobre cidadania, práticas de planejamento urbano e identidade metropolitana. Esta rede tem sido construída a partir de ações colaborativas promovidas em parceria com grupos locais voltados para práticas socioculturais e de intervenções integradas de urbanismo colaborativo.

 

  • Nossa Casa Comum – NCC – Brasília/DF

Foto: Mariana Bomtempo

Foto: Mariana Bomtempo

O projeto Nossa Casa Comum trata-se de um projeto piloto educacional para alunos de ensino médio que visa utilizar-se da curiosidade natural dos jovens para estimular seu pensamento crítico em relação a cidade em que moram, estimular seu engajamento como cidadãos e principalmente, responsáveis por construir a identidade de uma cidade tão jovem. No projeto, a escola funciona como centro de convergência em uma comunidade, para procurar alternativas para o bem-estar da mesma.

 

  • Escola de Férias – Rede CsF – Paraná/RN

Foto: Yolanda Rodrigues

Foto: Yolanda Rodrigues

A escola de férias foi um projeto criado pela Rede CsF, onde estudantes universitários, que em sua maioria tiverem oportunidade de fazer intercâmbio acadêmico no exterior, tiram cerca de uma semana de suas ferias para transmitir conhecimentos que envolvem os pilares de CTI&E, ciências tecnologia, inovação e educação, em locais carentes de desenvolvimento do país. No interior do Rio Grande do Norte, foram apresentados minicursos de empreendedorismo, design, idiomas com enfoque em cultura, robótica, tecnologia 3D e neurociência, atingindo cerca de 500 pessoas.

 

  • Caminhada da Joaninha – MOB – Brasília/DF

Foto: Coletivo MOB

Foto: Coletivo MOB

O objetivo da Caminhada da Joaninha foi promover a crianças de diversas idades maior interação com o espaço público incitando questionamentos sobre temáticas urbanas. A cada ponto de parada do circuito era debatido um tema. Sabendo da necessidade de método lúdico para atingir o ambiente infantil, foram preparadas dinâmicas e gincanas para exercitar cada tema como lixo, acessibilidade e etc. Ao final do evento as crianças foram condecorados como protetoras da cidade com direito a juramento.

 

  • Intervenção Urbana Espaço de Idéias – LabURB ULBRA – Santa Maria/RS

Foto: Andressa Rocha

Foto: Andressa Rocha

Visando a reabilitação urbana de espaços públicos e criação de mobiliários sustentáveis, o projeto LabURB ULBRA criou o Espaço de Ideias, uma intervenção em forma de “sala aberta” que convida a comunidade para participar de atividades e relatar as necessidades para a utilização dos lugares. O objetivo é identificar os aspectos a serem considerados no processo de reabilitação para a promoção do uso social, senso de comunidade e minimização do vandalismo nessas áreas.

  • PRAÇA VIVA: vivência coletiva na Praça Santo Antônio – Cachoeira do Sul/RS

Foto: Michelle Morais

Foto: Michelle Morais

Praça Viva consiste em um evento de ocupação temporária, de vivência coletiva e de revitalização das relações junto a Praça Santo Antônio, em Cachoeira do Sul/RS, com vistas a deixar de ser apenas lugar de passagem e passar a integrar o dia-a-dia da comunidade, de forma que os cidadãos sintam-se parte integrante, dependente e agente transformador das cidades.